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24 de Setembro de 2018

Nasce um Advogado Previdenciarista

Breve Reflexão Sobre a Motivação do Advogado na Escolha de Área de Atuação

Christina Morais, Advogado
Publicado por Christina Morais
há 7 meses

Num tempo relativamente recente em relação ao tempo de advocacia, iniciei a militância no Direito Previdenciário. Minhas primeiras atuações nesta seara são de 2013 (com alguns processos ainda em tramite), numa carreira advocatícia iniciada desde 2001.

Para falar a verdade, eu me formei bastante “crua” em conhecimentos na área previdenciária. Meu pai, já aposentado, tinha interesse em fazer uma revisão do seu benefício, uma vez que como contador, ele via que o valor do seu benefício estava muito aquém da proporção de suas contribuições. Administrativamente, ele havia tentado alguma coisa em todas as instâncias do processo, mas como todo cidadão, ao esbarrar nos entraves jurídicos de uma decisão final do INSS, logo concluiu, como qualquer cidadão que hoje me bate à porta, que a situação carecia da atuação de um advogado.

Pai orgulhoso de uma filha advogada que ele havia formado com muito esforço, naturalmente, tão logo eu abri meu primeiro escritório, ele me pediu para tentar resolver o caso perante a Justiça. Pegou-me de saia justa! Eu não saberia, naquele tempo, nem por onde começar. Teria sido meu primeiro cliente, uma honra inenarrável para mim (e só agora vejo isso).

Mas, inocentemente e sem prestar muita atenção na profundeza emocional que envolvia o todo da situação, naquela minha primeira consultoria desatenta e desastrada ao meu primeiro cliente, o que eu fiz, resumindo a história, foi orientá-lo a contratar um advogado! Tudo bem, tudo bem. Assumir que a causa apresentada não é da sua área e orientar o cliente a buscar um especialista, é um parecer válido e ético a uma consultoria jurídica. Porém, ante o honesto e notório desapontamento dele, quedei-me para sempre com esse incômodo na consciência e nunca deixei de achar que eu deveria ter me esforçado mais, buscado o conhecimento necessário para atender a tão ilustre cliente e tão honrosa demanda.

Segui carreira, atuando na minha zona de conforto: o direito civil. E uma cosita ou outra de criminal.

Nesse meio tempo fiz meu primeiro mandado de segurança! Em face de autoridade do executivo, relativo a contrato licitatório. Coisa grande. Fiz sem muito esforço, seguindo o passo a passo um manual clássico. E, deu certo! Com liminar concedida e tudo mais. Nos bancos de faculdade sempre gostei do Direito Administrativo, mas achava que seria difícil atuar nessa área. Achava tudo muito teórico. Porém, o sucesso nessa ação me abriu as portas para outras oportunidades de atuação nesta seara e fui me aprimorando, levando a teoria à prática, sempre obtendo sucesso considerável nas causas que patrocinei.

Até que em um curso comum de atualização, tive a oportunidade de ter um ótimo professor de Direito Previdenciário e minha intimidade com o Direito Administrativo já na prática, aclarou minha mente e finalmente, eu aprendi alguma coisa. Consegui visualizar a aplicabilidade da lei ao caso concreto, consegui visualizar o fundamento jurídico e o fundo de direito das ações previdenciárias e senti-me preparada para encampar uma ação, finalmente. Fui atrás do meu primeiro cliente: “agora já sei o que fazer, vamos fazer”. Tarde demais. Já em idade muito avançada, doente e esgotado, ele havia perdido o interesse. Um soco no meu estômago que dói até hoje.

Em vez de desanimar, ganhei fôlego novo e cismei que eu queria porque queria atuar nessa área. Era questão de honra. Essa vontade cresceu quando o ‘primeiro cliente’ veio a óbito. Poucos anos depois, em 2013, tive minha primeira oportunidade de dedicar-me a isso fazendo parceria com colegas especialistas. E agarrei a chance. E assim nasceu mais um advogado previdenciarista. Ainda estou em campo novo, cada dia aprendendo mais e mais. Como sabemos, 5 (cinco) anos são considerados início de carreira. Mesmo advogando desde 2001, só em 2019 serei sênior nesta área do direito. E espero em 2018 avançar a passos largos no conhecimento para merecer o “título” de sênior em Direito Previdenciário. Não tenho muitas ações, sou profissional liberal e agora atuo por conta própria e não posso fazer mais de que duas mãos me permitem. Mas levo a sério cada desafio. E, quando alguma coisa ameaça me jogar ao desânimo, eu me lembro da minha motivação inicial. E sigo adiante. Ainda atuo em outras áreas, desde que eu as domine. O direito me fascina de modo geral e não consigo gostar de uma coisa só. Mas, só de saber que hoje eu posso incluir o Direito Previdenciário na minha zona de conforto, já é suficiente para lavar a minha alma.

E você? Qual a sua motivação? Não sabe? Faça uma breve reflexão e descubra o que motivou os caminhos que você trilhou até chegar aonde chegou. Tome consciência e nunca se esqueça disso. É exatamente o que o manterá no jogo.

11 Comentários

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Muito bom! @christinam

Um dia desses eu assisti a um TEd que falava sobre escolhas e sonhos. Normalmente temos uma coisa tão certa na cabeça, um sonho de ser algo, que não nos abrimos para outras oportunidades que são tão boas quanto e se encaixam muito bem com o nosso estilo e visão de mundo. De repente estamos num caminho que não era o planejado, mas estamos tão bem que - nossa! - não é que deu certo? continuar lendo

Boa tarde nobre colega,

Seu história me emocionou muito. Parabéns por perseverar na área que seu primeiro cliente lhe solicitou. Tenho certeza que, no final do dia, tudo o que ele deseja é a sua felicidade e que hoje olha para você com orgulho e alegria no coração.

Te desejo tudo de bom. Abraços continuar lendo

Obrigada. O seu comentário também me emocionou! continuar lendo

Muito bom quando se fala daquilo que se conhece a fundo, como quando falamos de nós, de forma verdadeira. Dá pra sentir isso.
Belo e útil texto e como tem sido, narrado de forma irretocável. continuar lendo

Dra. Cristiane também atuo nesta área , Hoje em dia para se aposentar e como tirar na loteria . O INSS dificulta o maximo sem contar que quando o pedido e deferido na justiça o INSS recorre até a última instancia , sempre protelando, tem que ter muita paciência para advogar nesta área.

O que percebemos na atual conjuntura e que a Previdência Social esta cada vez mais dificultando a obtenção da aposentadoria. O trabalhador tem que permanecer por mais tempo em atividade no mercado de trabalho. Isso ocorre em virtude de critérios mais rígidos para aposentadorias.

Os trabalhadores não tem acesso à informação, e mesmo aqueles que o tem ficam em duvida, devido à complexidade e constante mudanças que ocorrem na previdência.

Cada dia que passa mais e mais mudança deixando o cidadão em duvida. A verdade é que a Previdência Social não esta preocupado com seus beneficiários e muitos menos com a classe de trabalhadores menos esclarecidas.

Hoje em dia a tão sonhada aposentadoria e como se fosse tirar na loteria, visto que a burocracia na esfera administrativa e tanta que 90% dos pedidos são indeferidos. Restando ao cidadão procurar a JUSTIÇA. Nas grandes cidades e Capitais tem o Juizado Especiais que são mais rápidos, agora no interior onde tem que acionar a Justiça Comum, os processos demoram muitos e quando há decisão de primeira instancia a Previdência recorre ao TRF e lá só Deus sabe quando vai ser julgado. Em sendo julgado no TRF lá vem novamente a Previdência com novo recurso. Embargos – Recurso Especial enquanto isso o cidadão fica a mercê esperando sua aposentadoria. Tem caso que quando o processo transita em julgado o autor já veio a falecer.

Isto é a nossa Previdência atual. Sem a mínima consideração com os mais necessitados.

O governo acha que dando a bolsa família vai suprir o direito do cidadão a pleitear sua aposentadoria. Olha que esta conseguindo. Nossos legisladores não estão preocupados com a classe menos favorecida, basta verificar as medidas provisórias que o governo editou. O congresso validou e nós contribuintes vamos ter que esperar por muito tempo para conseguir a tão almejada aposentadoria continuar lendo

Concordo com tudo! Dr Sergio, se me permite a correção, mas é Christina. Cristina, com h, rsrsrs. Enfim, sim, por isso eu sou a favor da contratação de um adv. No INSS eles têm mania de asseverar ao cidadão sobre a "desnecessidade" de advogado. Uns invejosos. Muitos são bacharéis em Direito e como advocacia exige muito investimento para retorno de longuíssimo prazo, perderam a fé e desistiram. Agora fazem questão de tirar até a última migalha de pão que um advogado possa auferir no exercício da profissão. Até juízes fazem isso. O que dirá os bacharéis que foram parar atrás de um balcão de atendimento ao público! Então esse ramo é difícil pra todo mundo. E não é à toa que @alestrazzi nos chama de heróis previdenciariistas. É exatamente o que somos. O INSS além de atender mal, orienta mal, recolhe assinatura do analfabeto desacompanhado de um advogado. Um amigo mais ilustrado que seja, e tem a cara de pau de indeferir sem nem entregar uma carta de exigência orientando a pessoa a buscar ajuda para cumprir. Não se dão o trabalho de sanear o processo. Recolhem documentos originais (azar do coitado que não teve a presença de espírito de tirar um xerox). Em qualquer cidade a aps fica em local comercial. Custava orientar a ir ali tirar uma cópia? Mas não. Querem desovar o sujeito da mesa o mais rápido possível. Não bastasse, perdem ou omitem documentos. Entregam cópias digitais do processo faltando de um tudo. E assim, consumindo com os documentos que instruem a ação judicial, atentam contra a dignidade da Justiça. E ainda dizem que o segurado não precisa de advogado! Conosco já não é fácil. Sozinhos então fica quase impossível. E no final de tudo, ainda aparece juiz pra arbitrar honorários de sucumbencia no piso do piso, senão abaixo. E serventuário de balcão da secretaria da vara pra falar com o cidadão que foi buscar uma RPV que o advogado já recebeu a parte dele. Careca de saber que o que está nos autos são os honorários sucumbenciais. Fomentando o calote em relação aos honorários contratuais, semeando dúvida quanto à honestidade do advogado, ao deixar parecer ao cliente que o mesmo está cobrando 2x. E com isso denigrem a imagem do profissional que deu duro para o cliente sair vencedor na ação. Então, sim. As pedras no caminho são muitas e não são pequenas. continuar lendo