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18 de Outubro de 2019

A advogada e o "salto do seu sapato"

O que o vestuário pode revelar sobre você

Christina Morais, Advogado
Publicado por Christina Morais
ano passado

Parafraseando o subtítulo do artigo anterior sobre vestuário na advocacia, (leia aqui), hoje chamo a atenção com o que normalmente é o principal acessório do vestuário feminino, dentro e fora da advocacia: o sapato. Entretanto, hoje não ousarei dar muitas dicas às colegas e nem falarei de sapatos especificamente, mas do geral. Será mesmo um testemunho pessoal da minha observação empírica sobre o tema do vestuário feminino na advocacia.

Na minha jornada de mais de vinte anos no meio jurídico, se contar o período da faculdade, posso assegurar que vi muitas mudanças no "desfile de moda" dos corredores dos fóruns. Mas não posso dizer que tenha sido exatamente uma evolução. Na minha personalíssima opinião, na verdade, o que tenho visto é uma involução. Nem sei se posso chamar de “regresso”, pois nunca estivemos onde estamos.

Logo que ingressei no meio forense, lembro que fui estagiária por um breve período no gabinete de um promotor de justiça. Naquele tempo, eu e quaisquer outras estagiárias não íamos arrumadas como “advogadas”. Qualquer transeunte do fórum sabia exatamente quem eram os estudantes que estavam ali estagiando, só de olhar.

Na época o estágio não era remunerado, salvo raríssimas exceções e o investimento em vestimentas adequadas para o meio forense era inacessível para a maioria dos estudantes. Não existia a onda “Made in China”, nem lojas de departamento no interior, então tudo era oito ou oitenta: roupa boa e cara, ou furreca e barata. Talvez por isso, não se esperava que nos apresentássemos “a caráter”, apenas que estivéssemos apresentáveis. O estilo do estagiário era casual discreto. Nem chique, nem despojado. Severo e discreto. Trocávamos o tênis por um sapato mais elegante e a camiseta de malha por uma blusa mais arrumada. A calça era jeans mesmo. Bons tempos. Estudantes tinham cara de estudantes.

As advogadas de carreira, naquele tempo, usavam taller, calça e camisas sociais finíssimas com acessórios elegantes, como lenços de seda, sapatos mocassim femininos, uma febre na época, e sempre, é claro, os bons e eternos scarpins. Brincos e colares de pérolas eram quase um uniforme. E cabelos imaculadamente arrumados em salão, especialmente as colegas mais velhas, distintas doutoras, que inspiravam respeito e admiração. Um dia seríamos como elas!

Como já testemunhei aqui antes, ao ingressar na carreira, eu tive dois terninhos coringa, fruto de um altíssimo investimento inicial na carreira. Coisa muito boa. Eu tinha o exemplo das colegas decanas muito distintas para “imitar”, digamos assim. A realidade caiu sobre minha cabeça quando percebi que meus rendimentos ainda não eram suficientes para manter tal padrão e talvez nunca viessem a ser. Alguns ajustes foram necessários ao longo do tempo em relação às lojas e preços. Mas jamais, em relação ao estilo. Nunca abri mão de manter um cantinho do guarda roupas com peças coringas de vestimentas austeras, adequadas para o meio forense. Sempre primando por discrição e elegância. Enfeites? A não ser brincos e anéis discretos, nada. Às vezes nem isso, confesso. No muito, um relógio (bom) e olhe lá.

E os sapatos? Onde ficam nessa história? Bem, nos pés. Discretíssimos, de boa qualidade e aparência, com único propósito de calçar e não fazer feio. No início usei salto, e muito. Adorava (e ainda adoro), o estilo Channel. Mas hoje, hum... Digamos que a “vaidade” não me permite mais me equilibrar no corre-corre do dia a dia em cima de scarpins e chanéis de saltos altos. Troquei por sapatinhos sociais femininos baixos. A não ser quando uso saia ou vestido reto (rigorosamente nos joelhos), aí o salto é essencial e faço o “sacrifício”.

Porém, o que vejo hoje nos corredores do fórum é um festival de falta de noção de algumas colegas. Saltos altíssimos, com plataformas ao melhor estilo “drag queen”. Gente, pra quê isso? Sandálias de salto com dedinhos de fora, cheias de penduricalhos brilhantes (fórum ou boate, afinal?). Plataformas anabela enormes, parecendo uns tijolos nos pés (lindas, para a festa de aniversário da melhor amiga). Até rasteirinhas já vi. Calças flare da ultimíssima moda. Camisetas decotadas, cavadas, maxi colares, pulseiras barulhentas, estampas extravagantes. Maquiagem que Deus dá. Em relação à maquiagem pesada, se estivessem mais bem vestidas eu diria que se pareceriam com vendedoras de loja de cosméticos. Mas nem isso. As vendedoras de cosméticos de lojas elegantes se vestem melhor que as advogadas de hoje.

Outro dia, uma cliente que me aguardava na porta do meu escritório me elogiou assim que cheguei e saltei do carro: “Dra. Christina hoje está chique hein”. Eu estava o mais básica possível. Mas estava com uma roupa que a moça tinha acabado de passar e meu batom ainda não tinha derretido no sol escaldante de minha caliente Montes Claros, perdida no sertão mineiro. Talvez fosse isso: o capricho. Agradeci o elogio e a cliente ainda retrucou, no seu modo simples de se comunicar: “é, porque hoje a gente vê aí umas advogadas vestidas parecendo que estão indo é pra balada”. Sorri e calei-me. Mas por dentro, concordei e mais: eu já tinha reparado nisso.

Então escrevi a matéria “O advogado e a cor de sua gravata” e um dos comentaristas pediu que escrevesse algo sobre as colegas do sexo feminino. Lembrei-me de minhas impressões pessoais dos últimos tempos, do comentário da cliente e do tom do comentarista jusbrasiliense em meu artigo e decidi: é, está na hora de dar um toque. Pelo jeito, não sou a única que estou “reparando”. Não quero ser a “velha chata” que não entende da moda dos jovens. Não sou tão velha pra não entender de moda. Mas chata eu sou. Então fica o apelo: caras colegas, por favor, vamos honrar nossa imagem vestindo roupas adequadas. Vamos seguir o exemplo dos nossos colegas do sexo masculino, que em qualquer idade, se apresentam impecáveis no ambiente forense.

A única dica que deixo às colegas que queiram se arrumar para trabalhar é: estar “arrumada” não é o mesmo que estar “chique”, muito menos elegante. Não importa a marca da roupa e quanto ela custou, se for inadequada para o ambiente ficará vulgar, correndo o risco de ser inclusive brega. Chique é saber a diferença entre uma coisa e outra; e elegância é vestir-se de acordo com o ambiente. Hoje em dia a informação está aí disponível para todas. Lojas virtuais vendem roupas de qualidade honesta e aceitável a preços muito atrativos, mas o melhor não é isso. É que ao clicar nos filtros e escolher os modelos, as ilustrações com as fotos orientam bastante sobre o ambiente para aquele estilo. E isso pode ajudar a treinar o olho para escolher roupas adequadas nas lojas físicas de sua preferência.

Encerrarei com o mesmo “PS” sobre as gravatas:

PS: Em atenção à minha série de artigos sobre ética na advocacia, vale lembrar que o uso de roupas adequadas, respeitando a imagem que elas irão ditar sobre sua pessoa, está em consonância com a diretriz do art. 2º do Código de Ética e Disciplina da OAB:

Parágrafo único. São deveres do advogado:
III - velar por sua reputação pessoal e profissional;

* A ilustração desta matéria é uma charge de mim mesma, que ganhei de presente de um amigo

12 Comentários

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Lindo artigo Dra. Christina. Obrigada por compartilhar; falando em compartilhar, compartilharei com os seguidores (as) da minha página; o outro fez sucesso!

Só um adendo: (e não se chateie - a pessoa lê e acaba querendo dá pitaco no artigo alheio...kkk, não repare):

"Não quero ser a velha chata que não entende de moda dos jovens"...e "não sou tão velha que não entenda de moda" (de baixo para cima, o quarto parágrafo)..rsrsrs...

Acho que sou bem mais velha que você e entendo de moda (há exceções).rsrsr; até porque Angela Pimentel, Glória Kalil e Alice Ferraz, que trabalha com Camila Coelho (esta última é novinha) nos vídeos tutoriais The Hits, são "coroas", a maioria mais velha que eu (exceto Alice Ferraz e Camila)

Enfim, em tudo mesmo há exceção (e isso é bom - imagine senão?).

No final das contas acabei sendo a velha chata que dá pitaco! kkk
Abraço, bom dia e sucesso para ti.

obs.: vc falou em calor no interior de Minas....imagine eu quando atuava frequentemente no calor de Cuiabá (ser elegante alí é coisa para fortes colega - afinal, conseguir que a maquiagem não derreta e ficar dentro de um casaquinho social....affff). continuar lendo

Eu sei disso:

"Angela Pimentel, Glória Kalil e Alice Ferraz, que trabalha com Camila Coelho (esta última é novinha) nos vídeos tutoriais The Hits, são"coroas", a maioria mais velha que eu (exceto Alice Ferraz e Camila)"

Mas muitas vintinhas deslumbradas não. E ainda acham que o mundo foi feito ontem, pra elas. E elas estão certas e a Bíblia está errada. Meu comentário foi nesse sentido: falo da arrogância natural do jovem, que acha que qq um com 10 anos a mais é um demente senil que não sabe do que está falando. kkkkkkkkk

PS: Esquecemos de citar Constanza Pascolato!!!!! Que gafeeeeee... A diva da moda brasileira, única com reconhecimento internacional. rsrssrs @diariodeconteudojuridico continuar lendo

Gostei do artigo - verdade!!!
Mas não consigo comentar, teria que estudar hermenêutica vestimentária. :-(

Quando tenho que ir a algum lugar mais exigente... consulto minha ex mulher.
Não falhou até agora. continuar lendo

Já fiz uma audiência em que a advogada da contraparte estava de shortinho. Acredita? Shortinho! Colocou um short, uma meia calça preta e salto alto... Caí para trás, nunca imaginei que iria ver uma advogada trabalhando de short. continuar lendo

Num tô falando? Short nunca vi não, mas no geral é isso mesmo: se arrumam como se fosse pra uma festa, uma balada, uma night. Sei lá. Nunca para o Fórum. Engraçado é que a família deixa. Essas moças saem de casa escondido? Na minha casa meu pai seria o primeiro a chamar atenção. Quando eu era solteira. Hoje é meu marido. Se estou com preguiça, só tenho mesmo que realizar devolução de autos e tento sair de calça jeans, se meu marido me vê com o "pastinha" debaixo do braço já pergunta: vai comprar pão com esse processo? (querendo dizer que estou arrumada pra ir à padaria, mas não ao forum). E olha que ele é técnico de informática, anda de moto, despojado, pasta atravessada, jeans e camisa pólo. Mas tem noção da imagem que se espera de um advogado. O mesmo a empregada. Uma vez deixei umas roupas para passar e ela perguntou se eu não ia trabalhar naquela semana (porque não viu nada que servisse para o trabalho nas roupas que cuidei no final de semana). Então sim, temos uma imagem a zelar. As pessoas (todas elas) reparam. E não é caso de "não ligo para o que os outros pensam". Advocacia tem humus público, é serviço prestado à Justiça. Você pode ir a uma festa com um decote gigante e dizer que não liga para o que os outros pensam. Mas no ambiente de trabalho, não temos a mesma liberdade. Há uma ética a seguir, que passa pelo vestuário adequado. E pra falar a verdade, toda profissão tem seu estilo e a maioria dos profissionais o respeita. Engenheiras gostam de capacete marcando a chapinha? Será? E daquelas botas feias? Duvido. Mas são indumentárias essenciais ao exercício da profissão então usam. Os homens também. Pode estar o calor infernal que for, lá vão eles de terno e gravata. Só as mulheres advogadas de hoje em dia que estão assim, nessa rebeldia sem causa. continuar lendo

Interessante, @christinam. Tenho zero propriedade para falar de vestuário, 70% do meu guarda-roupa é de peças repassadas para mim e simplesmente não consigo usar salto fino. No quesito de vestuário forense eu deixo de lado as camisetas de banda e uso terninho com sapatilha, e para por aí hahah continuar lendo

Eu também sou exatamente igual. Aliás, dado o clima infernal de minha cidade, nem uso terninho. Só camisas sociais com calça e sapatinhos e sapatilhas baixas. Mas não é de gente como a gente que estou falando Natália. Leia direitinho... rsrsrs continuar lendo